As histiocitoses constituem um grupo diverso e raro de doenças na infância. São classificadas pela Sociedade Internacional de Histiocitose em 3 classes: desordens de comportamento biológico variado derivadas de células dendríticas (1) ou monócitos (2) e desordens histiocíticas malignas (3). O diagnóstico do sarcoma histiocítico (SH) baseia-se na imunofenotipagem, que comprova a linhagem histiocítica por meio da expressão positiva dos antígenos associados ao macrófago, CD68 e Lisozima, e negativa do CD1a, CD21 e CD35. Recentemente caracterizado, o CD163 é um marcador promissor de neoplasias histiocíticas. O SH tem apresentação clínica variada. Quando inicialmente confinado à pele tem curso clínico indolente e, em alguns casos, regressão espontânea.
Por meio do estudo do prontuário e pesquisa no PubMed, os autores descrevem um caso raro de SH em lactente.
Menina de 16 meses, parda, natural da Bahia, apresentou aos seis meses de vida pápula hiperemiada única, junto à asa nasal esquerda, que regrediu espontaneamente. Aos 11 meses, esta lesão reapareceu, bem como outra semelhante em região contralateral. Aos 13 meses, a paciente apresentou piora do estado geral, linfonodomegalias e edema nas articulações interfalangeanas; provas reumatológicas eram negativas e hemograma normal. Onze dias depois desenvolveu pancitopenia e febre, realizando mielograma que descartou leucemia. Aos 14 meses, surgiram múltiplos nódulos no corpo, não pruriginosos, acastanhados, indolores, firmes e de dimensões variadas. Após um mês, evoluiu com distensão abdominal e piora progressiva das lesões levando a mãe a procurar atendimento médico em São Paulo. Aos 16 meses, foi admitida em nosso serviço em bom estado geral, com hepatoesplenomegalia e nódulos disseminados que aumentaram progressivamente, principalmente na face (foto). Hemograma de admissão evidenciava pancitopenia. Mielograma apresentava 44% de células granulares anômalas, em diferentes estágios maturativos, com características displásicas e mieloperoxidase negativa, considerou-se a hipótese de mastocitose sistêmica, que foi afastada pela ausência de células com imunofenótipo anômalo. Biópsia de pele foi compatível com sarcoma histiocítico, confirmado pela imunohistoquímica positiva para CD163, CD68, lisozima e CD 45, e negativa para CD1a e proteína S100. A paciente foi tratada com dois ciclos de Cladribina (9mg/m²/d) e Citarabina (500mg/ m²/d) por cinco dias, evoluindo com regressão importante das lesões.
Descrevemos o caso de uma lactente com SH, cujo diagnóstico e tratamento representou um grande desafio. Esperamos que este relato contribua para a caracterização clínica e anátomo-patológica desta doença, extremamente rara na faixa pediátrica.

A Leucemia Mielóide Aguda (LMA) Monocítica (M5) representa cerca de 15% das LMA em crianças maiores de 2 anos porém chega a quase 50% nas menores de 2 anos. A apresentação clínica usual incluí leucometria elevada, alta incidência de infiltração extra-medular e acometimento de SNC.
Relato de um caso de lactente com diagnóstico de LMA M5 com apresentação clínica cutânea atendido em nossa instituição.
Lactente com 1 mes e 30 dias de vida sem relato de intercorrências gestacionais e neonatais com história de surgimento de máculas violáceas em tórax com subsequente acometimento de abdome e face. Biópsia de pele e imunohistoquímica com infiltração por células de linhagem mielomonocítica ou histiocitária. Hemograma demonstrando apenas discreta anemia. Medula óssea com 83% de monoblastos, eritrofagocitose pelas células blásticas e imunofenotipagem compatível com Leucemia Mielóide Aguda de linhagem monocítica (CD13, CD14, CD33, CD11c, CD4, CD15, HLA-DR e cMPO). Citogenética com cariótipo 46, XY, t(8;22) ( p11;q13 ). Iniciado tratamento quimioterápico de acordo com o protocolo LMAIO-97, realizando primeiro ciclo indutório com Cladribine e AraC com mielograma no 21º dia deste ciclo mantendo 68,4 % de blastos monocíticos mas com ausência de hemofagocitose. Realizado ciclo DAV I com mielograma de reavaliação mostrando 30% de blastos, imunofenotipagem mostrando expressão de células imaturas com mudança do fenótipo dos blastos com perda da expressão da linhagem monocítica e a presença de antígeno CD34, marcando linhagem mielóide imatura. Cariótipo nesta ocasião já sem a presença da (8;22). Após a realização do ciclo DAV II o novo mielograma demonstrou remissão medular. O caso relata quadro raro de Leucemia Monocítica do Lactente com hemofagocitose associada e presença da t(8;22).
O envolvimento do 8p11 (gene MOZ) está associado com os subtipos morfológicos M4 e M5 mais comumente através da t(8;16) com o gene de fusão MOZ-CBP. Este confere características clínicas de CIVD, acometimento extra-medular, prognóstico reservado sendo descrito raramente em lactentes. A t(8;22) também está associada como esta forma de apresentação não usual da doença sendo um evento ainda mais raro.
Experimentos in vitro e evidências in vivo sugerem que as fusões gênicas freqüentemente encontradas nas leucemias agudas infantis não são os únicos eventos moleculares na leucemogênese. Estudos de perfil de expressão gênica demonstraram que o gene FLT3 está diferencialmente (altamente) expresso nas leucemias agudas dos lactentes (LAL) com rearranjos do gene MLL. Este gene codifica um receptor de tirosina quinase que quando mutado torna-se constitutivamente ativo, conferindo capacidade proliferativa aumentada à célula. Para verificar a associação entre as alterações dos genes MLL e FLT3, foi analisada a ocorrência de mutações FLT3-D835/I836 em LALs com e sem rearranjos do MLL.
Foram incluídas nesta análise amostras de LALs de novo, classificadas de acordo com critérios morfológicos (FAB) e imunofenotípicos (EGIL). A identificação das translocações do MLL foi feita por citogenética convencional, RT-PCR multiplex e FISH. A detecção da mutação FLT3-D835/I836 foi realizada por PCR-RFLP, na qual o fragmento do exon 17 amplificado por PCR foi digerido com a enzima de restrição EcoRV.
Foram analisados 64 casos de LAL: 44 com leucemia linfoblástica aguda (LLA), 18 com leucemia mielóide aguda (LMA) e 2 pacientes com leucemia bifenotípica. Foram 34 casos do sexo masculino e 30 do sexo feminino. As idades variaram entre zero a 21 meses, sendo que a média foi 8,9 meses. Entre as LLAs, 26 (60%) eram do subtipo pró-B e, entre as LMAs, houve predomínio dos subtipos M4-M5 (n=7) e M7 (n=8). Quanto à presença do rearranjo do MLL, foram 37 casos (58%) com MLL positivo. Além disso, 20 controles sadios foram testados. Todos os controles e todos os pacientes com LAL sem rearranjo do MLL apresentaram o gene FLT3 na sua forma selvagem. No grupo de pacientes com rearranjo do gene MLL, duas mutações em 37 pacientes analisados (5,4%) foram encontradas. Os dois casos em que ambas as alterações genéticas foram detectadas possuíam diagnóstico de LLA pró-B, com idade inferior a 5 meses e com altas contagens leucocitárias (192,1 e 155,1 x 109/L).
Estes resultados sugerem que as mutações no FLT3 não são os eventos secundários cruciais na origem da LAL. No entanto, a presença da mutação pode estar diretamente associada às crianças menores e cujo blasto contenha rearranjo do gene MLL. Além disso, os casos aqui apresentados endossam a hipótese de que alterações genéticas presentes nas LALs são adquiridas na vida intrauterina.
A leucemia aguda do lactente tem características clínicas e biológicas distintas que a diferencia das demais leucemias agudas da infância e determina sua evolução. Os últimos progressos no tratamento parecem ter modificado pouco o prognóstico desta faixa etária, que permanece ruim. Este estudo teve por objetivo descrever as características e a evolução dos lactentes com leucemia aguda tratados no Instituto de Oncologia Pediátrica/GRAACC/UNIFESP/EPM no período de 11 anos.
Foram avaliados retrospectivamente 37 lactentes diagnosticados com idades entre 0-24 meses e tratados no serviço entre janeiro de 1994 a julho de 2005. Resultados: 48% (18/37) dos pacientes apresentavam idade <12 meses; 61% (11/18) destes eram <6 meses. 62% eram do sexo masculino; 70% com diagnóstico de LLA e 30% de LMA. 2 pacientes eram portadores de síndrome de Down (1 portador de LLA e 1 de LMA-M7). Com relação à apresentação clínica, 70% tinham hepatoesplenomegalia variável, 60% apresentavam febre, 48% com adenomegalias, 19% com comprometimento de pele (nódulos); 16% tinham comprometimento de SNC. Nos achados laboratoriais, a mediana da leucometria foi 37.200/mm3 (1.800 – 1.000.000); entre os pacientes com leucometria <100.000/mm3(12/37), 70% destes eram <12 meses. Dos 24 pacientes com LLA que foram imunofenotipados, 33% foram classificados como LLA pró-B (todos <12 meses); 37,5% como LLA comum, 25% como LLA pré-B e 4% como LLA-T. Dos 17 pacientes onde a citogenética clássica foi avaliável, 12 apresentavam cariótipos alterados, destes 4 eram complexos e apenas 1 com t(4;11). Em relação à terapêutica instituída, 11% necessitaram de exasanguíneo-transfusões. Foram utilizados 5 diferentes protocolos quimioterápicos: GBTLI/LLA-93 (9), GBTLI/LLA-99 (10), BFM-95 (3), INTERFANT 99 (4), LMAIO/97 (11). Apenas 3 pacientes (portadores de LLA) foram submetidos a TMO alogênico em 1ª remissão clínica completa. A média de seguimento destes pacientes foi de 27,8 meses (0-136). A sobrevida global em 5 anos foi de 30,9+/-8,9%.Em relação à linhagem celular, a sobrevida global em 5 anos no grupo de LLA foi de 40,3+/-11,7% vs 10,6+/-9,9% (P=0,0155) no grupo de LMA. Em relação à faixa etária, os pacientes <12 meses apresentaram sobrevida global em 5 anos de 0 vs 55,6+/-10,9%(P=0,0002) para os maiores de 12 meses. Os pacientes com LLA e idade >12 meses tiveram um melhor prognóstico quando comparados aos <12 meses (P<0,0001; sobrevida global em 5 anos, 77,9+/-14,1% vs 12,6+/-11,4%). A mesma diferença em relação à idade foi observada nos pacientes portadores de LMA (P=0,0447; sobrevida global em 5 anos 0 vs 16,7+/-15,2%).
nossos dados demonstram que os lactentes portadores de LLA apresentaram sobrevida global superior aos portadores de LMA e reforçam a importância da idade como determinante prognóstico, caracterizando dois grupos distintos, onde aqueles com idade <12 meses apresentaram curva de sobrevida global significativamente inferior ao grupo <12 meses.
Os tumores hepáticos são raros na infância, variando de 0,5 a 2,0% dos cânceres pediátricos. Nas crianças que apresentam massa hepática, impõe-se o diagnóstico diferencial entre as hepatomegalias difusas e os tumores benignos e malignos, primários e metastáticos. Os vários estudos sobre tumores hepáticos na infância indicam que cerca de 70% são malignos. Entre esses, o mais freqüente é o hepatoblastoma.